Faço pesquisa com usuários e design de produto em qualquer contexto — nos últimos anos, sobretudo em software industrial — do levantamento em campo à interface.
Cinco anos de P&D industrial aplicado em um instituto de inovação do SENAI, passando por manufatura automotiva, energia e hidrogênio, segurança cibernética, alimentos, agroindústria e circularidade do vidro. O trabalho vai da pesquisa de campo dentro da planta até a interface.
Antes disso, uma década em design gráfico, comunicação científica e workshops participativos em um grupo de pesquisa em inovação urbana. Mestrado em Design da Informação. Criada na Inglaterra, estudei e trabalhei na Austrália, moro em Olinda.
Todo o trabalho com clientes está coberto por acordos de confidencialidade. As empresas são identificadas por setor e perfil, não por nome, e nenhuma interface de cliente é exibida. O que está descrito é método, evidência e decisão.
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Uma montadora internacional estava implantando um sistema de visão computacional para detectar falhas de pintura de cerca de 0,3 mm. A fábrica já fazia isso: inspetores percorriam a linha encontrando essas falhas a olho nu, todo turno. Nossa plataforma mostraria a eles o que a máquina havia encontrado.
A incógnita real não era se a interface seria usável. Era o que seria preciso para um inspetor aceitar, questionar ou contestar o veredito de uma máquina sobre um trabalho que até então era dele.
A nota geral dizia que o produto estava em boa forma. O dado por tarefa dizia outra coisa — e as duas tarefas mais fracas eram justamente sobre a única ação para a qual o produto existia: julgar uma falha apontada pelo sistema.
A visita de imersão revelou um objetivo que ninguém havia escrito no briefing: o resultado precisava ser legível na linha, de pé, no meio do turno. Virou uma funcionalidade que o projeto não tinha previsto.
Sobre a amostra. Cinco participantes é pouco, deliberadamente. O que importava era composição, não contagem: três eram inspetores de linha, os usuários cuja confiança o produto precisava conquistar. Os outros dois estavam fora do perfil-alvo e foram registrados como tal, em vez de inflar a amostra.
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O Discovery já estava encerrado: entrevistas e visitas técnicas em cinco indústrias — alimentos, vidro plano, automotivo, autopeças e baterias. Três núcleos técnicos haviam analisado aquele material cada um pela sua lente, produzindo três leituras diferentes dos problemas.
Não faltava informação. Faltava um caminho daquela pilha heterogênea até uma decisão sobre o que construir, para cinco empresas com maturidades digitais e prioridades distintas, sem que a resposta desabasse numa média sem graça ou no que a empresa mais influente quisesse.
Publicar o critério de pontuação junto com o resultado, em uma página que ficou visível no quadro, fez o grupo gastar o tempo discutindo a conclusão em vez da régua.
Atualmente conduzo o levantamento AS-IS com as três indústrias foco, transformando-o na definição funcional de cada módulo.
03
Duas, em sequência. Primeiro: quem é o usuário de uma plataforma de certificação de hidrogênio de baixo carbono, num mercado que mal existe? Depois, já com algo construído: um especialista consegue concluir um cálculo de pegada de carbono sem ajuda?
Tínhamos assumido dois perfis: Produtor e Comercializador. Em vez de desenhar sobre uma suposição, construí um instrumento bilíngue PT/EN com lógica de ramificação, segmentado por papel no mercado de hidrogênio, iterado com a equipe técnica e os stakeholders.
Os perfis passaram de dois supostos a quatro personas com evidência, e o foco de desenvolvimento foi reorientado para o perfil que a evidência sustentava.
A dificuldade percebida voltou quase uniformemente positiva: 38 de 42 respostas foram “muito fácil”. O comportamento contou outra história. A completude por missão foi de 100, 100, 92, 85, 57 e 71 por cento.
É a este caso que eu volto quando alguém propõe uma pesquisa de satisfação como avaliação. O autorrelato dizia que o produto estava bem. Observar as pessoas usando dizia que quase metade não conseguia concluir a tarefa em torno da qual o produto foi construído.
Entrei esperando um Discovery clássico e encontrei uma plataforma já construída por um terceiro: sem documentação formal, sem testes estruturados e com as regras de negócio na cabeça de um único desenvolvedor. Um produto prestes a entrar em ambiente industrial real, sem definição escrita do que era “correto”.
Adaptei o método em vez da realidade: uma imersão estruturada nos quatro perfis de usuário, mais próxima de engenharia reversa do que de Discovery. Também recusei as condições de trabalho que me deram — um build local e um documento de requisitos desatualizado — e negociei formalmente um ambiente de homologação com credenciais por perfil, mais revisões técnicas semanais com o desenvolvedor.
Resultado. 26 inconformidades de regra de negócio catalogadas e corrigidas antes de a plataforma entrar em operação na fábrica, incluindo um bloqueio que impedia o perfil de laboratório de liberar o forno. Histórias de usuário escritas e validadas formalmente com o parceiro de desenvolvimento, o que destravou a criação dos casos de teste do QA.
Aquela negociação levou tempo e foi a razão pela qual o trabalho se tornou possível.
Uma usina sucroenergética opera cerca de 500 máquinas em 14 municípios, com deslocamentos de até 80 km, coordenados diariamente por rádio, WhatsApp e planilhas consolidadas à mão. O projeto estava enquadrado como planejamento de rotas.
A pesquisa contextual em campo reenquadrou tudo: o ponto crítico não estava em montar a rota inicial, mas na capacidade de responder às mudanças ao longo do dia. Isso redirecionou a solução para replanejamento intradiário e monitoramento em tempo real.
O mesmo trabalho de campo explicitou as restrições que precisavam virar critério de projeto, em vez de surpresa tardia: áreas sem cobertura de rádio, baixa autonomia dos caminhões de abastecimento e limitações de circulação por tipo de veículo.
Oito perfis de usuário mapeados, com o escopo funcional organizado por quais capacidades eram exclusivas de um papel e quais eram compartilhadas. Projeto em andamento, sem métricas de resultado a apresentar.
Uma plataforma existente para as metodologias PDCA e DMAIC, sem diagramas, sem documentação e sem entendimento compartilhado de como as próprias permissões funcionavam. Entrevistei o cliente, obtive acesso de administrador depois de constatar que não existia material escrito, e explorei o produto sistematicamente, mantendo uma Matriz CSD até as certezas superarem suposições e dúvidas.
A segmentação acabou sendo a estrutura real do produto: dois modelos comerciais, B2C e B2B, e cinco perfis de usuário em hierarquia de matriz a filial. Mapeei o que cada perfil podia ver, fazer e, principalmente, não fazer, em cada tela.
Resultado. Os mapas de histórias orientaram a refatoração do back-end, e 11 melhorias de usabilidade viraram regras de produto, incluindo duas correções de erro que vinham silenciosamente impedindo usuários de concluir projetos.
Quando os sitemaps se mostraram difíceis de comparar entre perfis, criei uma tabela consolidada como novo artefato, para que a plataforma inteira pudesse ser lida em uma única vista.
Nasci no Brasil, fui criada na Inglaterra, estudei e trabalhei em Sydney antes de voltar para Olinda, onde moro. Tenho família na Itália e morei em Portugal. É a razão simples pela qual trabalho em dois idiomas e acho contextos desconhecidos mais interessantes do que intimidantes.
Minha graduação é em publicidade, meu diploma é em artes comerciais e meu mestrado é em Design da Informação, onde estudei como a instrução procedimental afeta a confiança das pessoas ao cozinhar com aplicativos de receita. Foi um estudo de métodos mistos, e foi ali que o hábito começou: observar o que as pessoas fazem em vez de confiar no que dizem que fazem.
Por cinco anos no INCITI, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco, produzi a saída visual e editorial de projetos de requalificação urbana para o Recife, ao lado da ONU-Habitat e da SAP. Mapas, infográficos, publicações científicas, exposições. Participei de sessões de escuta com moradores afetados pelas intervenções que estávamos desenhando.
Desde 2021 estou no ISI TICs, instituto de inovação do SENAI, conduzindo Discovery, pesquisa e design de produto em projetos de P&D industrial. Até três ao mesmo tempo, em setores sobre os quais normalmente não sei nada quando começo.
Mestrado em Design da Informação, UFPE.
Diploma of Commercial Arts, CATC Design School, Sydney.
Bacharelado em Comunicação Social, UNIAESO, laureada.
Certificação Lean Inception, Caroli.org.
CS50, Harvard, em andamento.