Bruna
Monteiro
Roazzi

Designer Sênior de Produto · Discovery e pesquisa com usuários Olinda, Brasil  /  Trabalho em PT & EN
00  /  Manifesto

Faço pesquisa com usuários e design de produto em qualquer contexto — nos últimos anos, sobretudo em software industrial — do levantamento em campo à interface.

Cinco anos de P&D industrial aplicado em um instituto de inovação do SENAI, passando por manufatura automotiva, energia e hidrogênio, segurança cibernética, alimentos, agroindústria e circularidade do vidro. O trabalho vai da pesquisa de campo dentro da planta até a interface.

Antes disso, uma década em design gráfico, comunicação científica e workshops participativos em um grupo de pesquisa em inovação urbana. Mestrado em Design da Informação. Criada na Inglaterra, estudei e trabalhei na Austrália, moro em Olinda.

Projetos selecionados

Seis projetos

Todo o trabalho com clientes está coberto por acordos de confidencialidade. As empresas são identificadas por setor e perfil, não por nome, e nenhuma interface de cliente é exibida. O que está descrito é método, evidência e decisão.

01

Plataforma para inspeção de falhas de pintura por visão computacional numa montadora

Manufatura automotiva  /  Inspeção de pintura por visão computacional  /  2022–2023  /  Condução da pesquisa e autoria do relatório de design

A pergunta

Uma montadora internacional estava implantando um sistema de visão computacional para detectar falhas de pintura de cerca de 0,3 mm. A fábrica já fazia isso: inspetores percorriam a linha encontrando essas falhas a olho nu, todo turno. Nossa plataforma mostraria a eles o que a máquina havia encontrado.

A incógnita real não era se a interface seria usável. Era o que seria preciso para um inspetor aceitar, questionar ou contestar o veredito de uma máquina sobre um trabalho que até então era dele.

Abordagem

  • Entrevistas com stakeholders das organizações parceiras, separando o que os patrocinadores do projeto queriam do que a linha de fato fazia.
  • Matriz CSD com 14 certezas, 6 suposições e 15 dúvidas, usada para decidir o que precisava ser verificado em campo, e não em reunião.
  • Visita de imersão à planta. Entrevistas só teriam me dado o processo como a gestão o descreve.
  • Análise comparativa de cinco sistemas de inspeção existentes.
  • Workshop colaborativo, com Lean Inception e Fast Product Discovery, em dois grupos e dois estados, em formato híbrido síncrono e assíncrono.
  • Teste de usabilidade em duas etapas sobre protótipo de média fidelidade, com piloto antes: 5 participantes, 7 tarefas, medindo completude, esforço, dificuldade percebida e SUS, mais um teste comparativo contrabalanceado entre dois modelos de interação.

O que a evidência disse

88,5SUS médio
todos acima do benchmark
60%de completude na
tarefa mais fraca
3 / 5erraram ao analisar
uma falha

A nota geral dizia que o produto estava em boa forma. O dado por tarefa dizia outra coisa — e as duas tarefas mais fracas eram justamente sobre a única ação para a qual o produto existia: julgar uma falha apontada pelo sistema.

  • 2 de 5 disseram em voz alta que não entendiam a diferença entre as duas opções que a tela oferecia.
  • 3 de 5 tentaram alterar a falha existente em vez de reportar uma nova, e todos demoraram a encontrar o botão de reportar.
  • 3 de 5 clicaram na linha da tabela para abrir uma inspeção, que só abria por um ícone pequeno.
  • O teste de preferência ficou 3 a 2, mas a versão perdedora carregava um argumento que a vencedora não tinha: ver o veículo inteiro de uma vez. As duas entraram no briefing de redesenho.

A visita de imersão revelou um objetivo que ninguém havia escrito no briefing: o resultado precisava ser legível na linha, de pé, no meio do turno. Virou uma funcionalidade que o projeto não tinha previsto.

O que mudou

  • A tela de análise de falha foi reescrita como uma pergunta na linguagem dos próprios inspetores, no lugar de dois ícones cujo significado precisava ser deduzido.
  • A linha inteira da tabela virou área clicável; a ação de reportar ganhou destaque.
  • Três achados foram marcados como prioritários e levados para o redesenho em alta fidelidade.
  • Um modo de exibição para uso na linha entrou no escopo do produto.

Sobre a amostra. Cinco participantes é pouco, deliberadamente. O que importava era composição, não contagem: três eram inspetores de linha, os usuários cuja confiança o produto precisava conquistar. Os outros dois estavam fora do perfil-alvo e foram registrados como tal, em vez de inflar a amostra.

02

Definição de agentes de IA para manutenção industrial, a partir das dores de cinco indústrias

Manutenção industrial / IA aplicada  /  Cinco indústrias, três núcleos técnicos  /  2026  /  Condução da análise e do desenho do processo

A pergunta

O Discovery já estava encerrado: entrevistas e visitas técnicas em cinco indústrias — alimentos, vidro plano, automotivo, autopeças e baterias. Três núcleos técnicos haviam analisado aquele material cada um pela sua lente, produzindo três leituras diferentes dos problemas.

Não faltava informação. Faltava um caminho daquela pilha heterogênea até uma decisão sobre o que construir, para cinco empresas com maturidades digitais e prioridades distintas, sem que a resposta desabasse numa média sem graça ou no que a empresa mais influente quisesse.

Abordagem

  • Desenhei a própria rota analítica — dores observadas, insights, oportunidades, casos de uso — selecionando um método por etapa a partir de 101 Design Methods, com justificativa declarada para cada escolha.
  • Padronizei a entrada com uma matriz de coleta de campos validados, para que três equipes registrassem observações de forma comparável.
  • Consolidei 12 dores em uma tabela única, organizada por presença nas empresas, intensidade e evidência de origem, separando o que estava dentro e fora do escopo.
  • Construí um instrumento de ranqueamento combinando relevância e urgência, aplicado a 7 respondentes dos três núcleos, com peso igual por núcleo, para que a equipe com mais respondentes não determinasse o resultado sozinha.
  • Verifiquei: refiz o cálculo por um método alternativo como teste de robustez. O topo do ranking se manteve. O critério de desempate foi fixado antes de alguém ver qualquer resultado.
  • Facilitei a ideação no Miro com escolhas deliberadas: geração anônima de ideias, uma dor por vez e o objetivo desejado no centro do quadro, em vez do problema.
  • Conduzi a sessão de decisão com as cinco indústrias, tendo antecipado os riscos: efeito da ordem de apresentação, dependências técnicas ocultas, influência assimétrica e a necessidade de um critério de corte definido de antemão.

Publicar o critério de pontuação junto com o resultado, em uma página que ficou visível no quadro, fez o grupo gastar o tempo discutindo a conclusão em vez da régua.

O que a evidência disse

  • A cadeia de dependência importava mais que o ranking. Alguns conceitos de agente eram pré-requisito de outros, não itens equivalentes de um cardápio. Tornar isso visível mudou a forma como as indústrias votaram.
  • Um direcionamento que ninguém tinha colocado em pauta. A análise da transcrição de uma reunião de três horas e meia, com mapeamento de falas por empresa, mostrou que as indústrias não queriam apenas escolher uma ferramenta: queriam antes padronizar entre si a metodologia de análise de falha.
  • Um ponto cego do meu próprio instrumento, declarado abertamente. Usei concentração de ideias por dor como sinal de prioridade — mas uma dor pode atrair poucas ideias por ser difícil de imaginar solução, não por importar menos.
12 → 5 → 2dores, para conceitos,
para módulos em desenvolvimento
5indústrias alinhadas
em um único escopo
3núcleos técnicos com
lentes concorrentes

Atualmente conduzo o levantamento AS-IS com as três indústrias foco, transformando-o na definição funcional de cada módulo.

03

Pesquisa e teste de uma plataforma de certificação de hidrogênio e de uma calculadora de pegada de carbono

Energia / hidrogênio de baixo carbono  /  Plataforma de certificação e calculadora de pegada de carbono  /  2023–2025  /  Pesquisa dentro de equipe multidisciplinar

As perguntas

Duas, em sequência. Primeiro: quem é o usuário de uma plataforma de certificação de hidrogênio de baixo carbono, num mercado que mal existe? Depois, já com algo construído: um especialista consegue concluir um cálculo de pegada de carbono sem ajuda?

Parte um  /  pesquisar um mercado que ainda não existia

Tínhamos assumido dois perfis: Produtor e Comercializador. Em vez de desenhar sobre uma suposição, construí um instrumento bilíngue PT/EN com lógica de ramificação, segmentado por papel no mercado de hidrogênio, iterado com a equipe técnica e os stakeholders.

  • Nenhum dos 21 respondentes comprava ou vendia hidrogênio. O mercado de comercialização, para o qual havíamos desenhado uma persona, ainda não existia.
  • 11 de 17 não calculavam a própria pegada de carbono; entre os que calculavam, a maioria usava o protocolo GHG Brasileiro.
  • 6 de 6 nunca tinham ouvido falar em certificação por blockchain.

Os perfis passaram de dois supostos a quatro personas com evidência, e o foco de desenvolvimento foi reorientado para o perfil que a evidência sustentava.

Parte dois  /  teste não-moderado da calculadora

  • Teste não-moderado no Maze com captura de tela e áudio, escolhido porque os participantes eram especialistas dispersos, cujas agendas não sobreviveriam a um agendamento moderado.
  • Piloto com 10 colegas internos antes, o que gerou novas missões, novas perguntas de acompanhamento e instruções mais claras antes que qualquer especialista visse a ferramenta.
  • Recrutamento por articulação de indicações com três instituições parceiras, três especialistas cada: pesquisadores, engenheiros químicos e ambientais, profissionais de descarbonização e novos negócios.
  • 7 participantes, 6 missões, dificuldade percebida após cada uma e SUS ao final.

A dificuldade percebida voltou quase uniformemente positiva: 38 de 42 respostas foram “muito fácil”. O comportamento contou outra história. A completude por missão foi de 100, 100, 92, 85, 57 e 71 por cento.

  • Na missão de 57%, os participantes não clicaram em editar e concluíram a etapa sem alterar o valor que haviam sido explicitamente convidados a alterar.
  • Vários nunca rolaram a tela, então os botões de que precisavam ficaram abaixo da dobra e a tarefa simplesmente parou.
  • Ninguém usou o botão voltar. Ninguém alterou uma resposta anterior para ver como o resultado se movia.
  • O áudio de um participante pensando em voz alta revelou que ele havia entendido errado o que uma etapa inteira da calculadora perguntava.

O que mudou

  • Aquele único trecho de áudio levou a equipe a refazer toda a segunda etapa.
  • A missão de 57% motivou a reconstrução da interação de edição na terceira etapa.
  • A tela de resultados ganhou uma comparação entre quatro rotas tecnológicas de produção, respondendo a uma pergunta que os participantes repetiam e o produto não respondia.
  • A referência regulatória foi atualizada de RED I para RED III; uma ação de validação redundante saiu do fluxo do analista.

É a este caso que eu volto quando alguém propõe uma pesquisa de satisfação como avaliação. O autorrelato dizia que o produto estava bem. Observar as pessoas usando dizia que quase metade não conseguia concluir a tarefa em torno da qual o produto foi construído.

Também atuei em

04 – 06
04

Documentação e validação das regras de negócio de uma plataforma de chão de fábrica já em construção

Indústria pesada  /  Digitalização de chão de fábrica  /  2025–2026  /  Condução do design, com um estagiário

Entrei esperando um Discovery clássico e encontrei uma plataforma já construída por um terceiro: sem documentação formal, sem testes estruturados e com as regras de negócio na cabeça de um único desenvolvedor. Um produto prestes a entrar em ambiente industrial real, sem definição escrita do que era “correto”.

Adaptei o método em vez da realidade: uma imersão estruturada nos quatro perfis de usuário, mais próxima de engenharia reversa do que de Discovery. Também recusei as condições de trabalho que me deram — um build local e um documento de requisitos desatualizado — e negociei formalmente um ambiente de homologação com credenciais por perfil, mais revisões técnicas semanais com o desenvolvedor.

Resultado. 26 inconformidades de regra de negócio catalogadas e corrigidas antes de a plataforma entrar em operação na fábrica, incluindo um bloqueio que impedia o perfil de laboratório de liberar o forno. Histórias de usuário escritas e validadas formalmente com o parceiro de desenvolvimento, o que destravou a criação dos casos de teste do QA.

Aquela negociação levou tempo e foi a razão pela qual o trabalho se tornou possível.

05

Pesquisa e design de uma plataforma de logística de colheita para uma usina sucroenergética

Agroindústria  /  Plataforma de logística de colheita  /  2025–presente  /  Design de produto, pesquisa e definição

Uma usina sucroenergética opera cerca de 500 máquinas em 14 municípios, com deslocamentos de até 80 km, coordenados diariamente por rádio, WhatsApp e planilhas consolidadas à mão. O projeto estava enquadrado como planejamento de rotas.

A pesquisa contextual em campo reenquadrou tudo: o ponto crítico não estava em montar a rota inicial, mas na capacidade de responder às mudanças ao longo do dia. Isso redirecionou a solução para replanejamento intradiário e monitoramento em tempo real.

O mesmo trabalho de campo explicitou as restrições que precisavam virar critério de projeto, em vez de surpresa tardia: áreas sem cobertura de rádio, baixa autonomia dos caminhões de abastecimento e limitações de circulação por tipo de veículo.

Oito perfis de usuário mapeados, com o escopo funcional organizado por quais capacidades eram exclusivas de um papel e quais eram compartilhadas. Projeto em andamento, sem métricas de resultado a apresentar.

06

Mapeamento e definição de uma plataforma de melhoria contínua, com segmentação por plano e perfil de usuário

Plataforma B2B / B2C  /  Melhoria contínua  /  2023–2024  /  Única pesquisadora e autora do relatório

Uma plataforma existente para as metodologias PDCA e DMAIC, sem diagramas, sem documentação e sem entendimento compartilhado de como as próprias permissões funcionavam. Entrevistei o cliente, obtive acesso de administrador depois de constatar que não existia material escrito, e explorei o produto sistematicamente, mantendo uma Matriz CSD até as certezas superarem suposições e dúvidas.

A segmentação acabou sendo a estrutura real do produto: dois modelos comerciais, B2C e B2B, e cinco perfis de usuário em hierarquia de matriz a filial. Mapeei o que cada perfil podia ver, fazer e, principalmente, não fazer, em cada tela.

Resultado. Os mapas de histórias orientaram a refatoração do back-end, e 11 melhorias de usabilidade viraram regras de produto, incluindo duas correções de erro que vinham silenciosamente impedindo usuários de concluir projetos.

Quando os sitemaps se mostraram difíceis de comparar entre perfis, criei uma tabela consolidada como novo artefato, para que a plataforma inteira pudesse ser lida em uma única vista.

A prática

O que eu conduzo
Discovery e enquadramento
Entrevistas com stakeholders e especialistas, desk research, análise competitiva e comparativa, Matriz CSD, imersão de campo em plantas e operações, enquadramento do problema e definição de escopo.
Recrutamento
Inspetores de linha, engenheiros de manutenção, equipe de laboratório, coordenadores de logística e especialistas de domínio articulados junto a instituições parceiras e universidades.
Avaliação
Testes de usabilidade moderados e não-moderados no Maze, métricas de completude e esforço, SUS, escalas de dificuldade percebida, análise heurística, testes comparativos de modelos de interação, rodadas-piloto antes de cada estudo.
Facilitação
Workshops de Lean Inception e Fast Product Discovery, sessões de ideação e co-criação, dinâmicas de priorização e decisão entre múltiplas empresas, presenciais, remotas e híbridas.
Síntese e especificação
Personas, jornadas, mapeamento de serviço e de processo, User Story Mapping, documentação de regras de negócio e relatórios de design usados por empresas parceiras e equipes de QA.
Design de interface
Wireframes, protótipos de média e alta fidelidade em Figma, componentes reutilizáveis, fluxos de interação e UX writing, acompanhados junto ao time de desenvolvimento durante a implementação.
Ferramentas
Figma e FigJam, Miro, Maze, Microsoft Forms, Storybook, Jira, Trello.
Sobre

Uma breve biografia

1983 –

Nasci no Brasil, fui criada na Inglaterra, estudei e trabalhei em Sydney antes de voltar para Olinda, onde moro. Tenho família na Itália e morei em Portugal. É a razão simples pela qual trabalho em dois idiomas e acho contextos desconhecidos mais interessantes do que intimidantes.

Minha graduação é em publicidade, meu diploma é em artes comerciais e meu mestrado é em Design da Informação, onde estudei como a instrução procedimental afeta a confiança das pessoas ao cozinhar com aplicativos de receita. Foi um estudo de métodos mistos, e foi ali que o hábito começou: observar o que as pessoas fazem em vez de confiar no que dizem que fazem.

Por cinco anos no INCITI, grupo de pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco, produzi a saída visual e editorial de projetos de requalificação urbana para o Recife, ao lado da ONU-Habitat e da SAP. Mapas, infográficos, publicações científicas, exposições. Participei de sessões de escuta com moradores afetados pelas intervenções que estávamos desenhando.

Desde 2021 estou no ISI TICs, instituto de inovação do SENAI, conduzindo Discovery, pesquisa e design de produto em projetos de P&D industrial. Até três ao mesmo tempo, em setores sobre os quais normalmente não sei nada quando começo.

Mestrado em Design da Informação, UFPE.

Diploma of Commercial Arts, CATC Design School, Sydney.

Bacharelado em Comunicação Social, UNIAESO, laureada.

Certificação Lean Inception, Caroli.org.

CS50, Harvard, em andamento.